Brasil
“Quando o feminismo vira um produto, a gente tem um problema”, afirma ativista
O 8 de março de 2020 acontece em meio a um cenário de retrocessos para as mulheres. Entre eles, declarações machistas e homofóbicas do presidente da República e a criação de políticas antiquadas que retiram direitos. Enquanto isso, a palavra “feminismo” ganhou o debate público e está na TV, nas lojas e na internet, para o bem e para o mal.
A luta das mulheres foi apropriada pelo capitalismo para lucrar em cima da força do movimento. É o que defende a jornalista e escritora Clara Averbuck. “Eu acho que o feminismo tem que estar na TV, em todos os lugares. O meu problema é quando começam a lucrar com blusinhas feitas em Bangladesh por mulheres que não têm direitos trabalhistas. Quando o feminismo vira um produto, a gente tem um problema”, pondera.
Clara é autora de sete livros, Ana Paula é CEO de sua própria empresa e Debora é assessora de Relações Internacionais. O que as três têm em comum é o fato de atuarem também na internet, além de outros espaços, e poderem adotar um título insuficiente para mensurar sobre sua contribuição ao debate, mas que hoje virou quase sinônimo de uma nova profissão: são influenciadoras.
A atuação no YouTube e nas redes sociais amplia o alcance da discussão e atinge outros públicos, que sem esse espaço não seriam alcançados pelas formas tradicionais de comunicação e militância. E esse também foi um dos temas da conversa. “A função da internet, para mim, sempre foi pautar debates e trazer pessoas para as organizações”, diz Debora, ao reforçar a importância das organizações para além do espaço virtual, que só introduz ao tema.
A visibilidade também tem suas consequências negativas, ainda mais em tempos de incentivo à violência, real e simbólica. Todas elas já sofreram com ataques e discursos de ódio nas redes sociais. Ana Paula, que também tem um canal no YouTube, lamenta que isso aconteça, mas alerta para o fato de que a violência não é exclusiva aos meios digitais. “Entender a internet como um lugar hostil é ignorar que a sociedade é hostil. Se a gente entender a internet como um espelho da nossa sociedade a gente vai ter um debate mais justo sobre a internet e sobre o que acontece fora dela”, afirma.
A violência misógina também é institucional e é reforçada pelas ações de quem está no poder, o que amplia a necessidade de mobilização para as marchas do 8 de março pelo Brasil, de acordo com Clara.
“A gente está vivendo esse retrocesso misógino de uma forma muito escancarada e quase pueril. E é tão absurdo e surreal que a gente não consegue debater, porque como se debate com ‘raspem o sovaco’? Isso não é um argumento, é só um ataque infantil”, sinaliza.
Para Ana Paula, “esse momento de retrocesso político gigantesco mostra o quanto a gente ainda tem um país que é completamente sexista, machista e misógino”, mas também reforça que, contra ele, deve surgir um novo levante das mulheres, construído de forma mais fortalecida e organizada.
Fonte: Brasil de Fato
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