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Brasil

Lula e Trump na ONU: dois discursos, duas visões de mundo em plena eleição

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A Assembleia Geral da ONU colocou lado a lado, em 22 de setembro, dois presidentes que representam visões bastante diferentes sobre política, economia e relações internacionais. Lula e Donald Trump falaram para o mundo, mas os dois discursos também tiveram forte conexão com suas respectivas agendas domésticas. No caso brasileiro, a comparação ganha ainda mais peso porque o país está a apenas 12 dias do primeiro turno das eleições presidenciais.

Lula abriu a Assembleia Geral defendendo soberania, democracia e multilateralismo. Trump, em seguida, fez um discurso de forte afirmação do poder americano, destacando força militar, economia, fronteiras, energia e tecnologia. A diferença não esteve apenas nos temas escolhidos, mas também na maneira de apresentar os resultados de seus governos.

Lula afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e disse que a democracia brasileira pertence aos brasileiros. Também criticou interferências externas nas eleições, defendeu o Pix como infraestrutura pública, falou contra a indústria das bets, defendeu o fim da escala 6×1 e pediu regulação da inteligência artificial.

Não é difícil perceber a dimensão eleitoral dessas escolhas. O discurso aconteceu a menos de duas semanas da eleição e levou para o principal palco diplomático do mundo assuntos que fazem parte do debate político brasileiro: soberania, emprego, direitos trabalhistas, Pix, apostas online, desinformação e democracia. Análises publicadas após o pronunciamento também destacaram essa conexão entre a fala internacional e a campanha pela reeleição.

Trump também falou para uma plateia internacional, mas sua fala foi marcada pela exaltação dos Estados Unidos como potência econômica, militar e tecnológica. Disse que havia criado mais de um milhão de empregos privados, garantido US$ 21 trilhões em compromissos de investimentos e que os Estados Unidos estavam mais fortes do que nunca.

É justamente aí que entra um elemento importante para a comparação: os números.

As principais checagens publicadas depois do discurso de Trump encontraram afirmações falsas, exageradas ou sem sustentação suficiente em diversos pontos. Entre elas estão as declarações sobre os US$ 21 trilhões em investimentos, a criação de mais de um milhão de empregos, a entrada de imigrantes, o petróleo mundial, o combate às drogas, as mudanças climáticas e a alegação de que Trump teria “resolvido” oito guerras. PolitiFact também questionou afirmações sobre a guerra no Irã e inteligência artificial.

Isso não significa dizer que todo o discurso de Trump tenha sido falso. Há afirmações verdadeiras ou parcialmente verdadeiras misturadas a outras que os verificadores classificaram como falsas, enganosas ou exageradas. O ponto jornalístico é outro: quando um discurso presidencial apresenta números e resultados, esses números podem e devem ser confrontados com os dados disponíveis.

E existe uma diferença relevante entre os dois pronunciamentos.

Lula construiu sua fala em torno de princípios políticos e sociais: soberania, democracia, negociação, direitos, regulação tecnológica, proteção social e fortalecimento das instituições multilaterais. Trump concentrou sua apresentação na força americana, na capacidade militar, no poder econômico e na afirmação de resultados de seu governo.

No cenário brasileiro, porém, há uma camada adicional.

Quando Lula fala que o Brasil não aceitará interferência externa, que as eleições serão decididas pelos brasileiros e que o país não será subordinado a interesses estrangeiros, ele está fazendo política internacional, mas também está dialogando diretamente com uma eleição que acontece daqui a poucos dias.

Por isso, a ONU virou também um espelho da disputa política brasileira.

De um lado, um presidente que apresenta soberania, democracia, direitos sociais e regulação como instrumentos para proteger o país diante das transformações econômicas e tecnológicas. Do outro, um presidente americano que apresenta força, poder econômico, capacidade militar e supremacia tecnológica como fundamentos da sua visão de mundo.

Há ainda uma diferença de método que merece atenção: no discurso de Lula, os temas nacionais foram apresentados dentro de uma argumentação política mais ampla sobre o papel do Brasil no mundo. No discurso de Trump, várias afirmações quantitativas foram apresentadas como demonstrações de sucesso e depois confrontadas por organizações de checagem.

No fim, os dois discursos foram políticos. Seria ingênuo imaginar o contrário, especialmente quando um deles acontece a 12 dias de uma eleição presidencial.

Mas é justamente por isso que a comparação interessa.

Mais importante do que escolher quem falou melhor é observar o que cada discurso revela sobre o projeto de país que está sendo apresentado ao eleitor: de um lado, a ideia de soberania articulada com democracia, direitos e multilateralismo; de outro, a ideia de poder nacional sustentada pela força econômica, militar e tecnológica.

A ONU foi o palco. Mas, para o Brasil, o verdadeiro público também estava em casa, diante das telas, a poucos dias de decidir seu futuro nas urnas.

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